Por Humberto Silva de
Lima (Doutor em Linguística Aplicada – UFRJ)
O
poema “Contrariedades”, de Cesário Verde, pode ser considerado um texto
argumentativo em que o poeta, na linguagem lírica, propõe que seja revista a
ideia do que seja literatura. Mais especificamente: qual tipo de literatura é
aceito pela sociedade, envolta por críticos literários que trabalham em
diversas mídias (jornais e revistas, por exemplo)?
Se observarmos as primeiras estrofes do poema,
poderemos notar um eu-lírico que se mantém intenso frente às produções
literárias de sua época, mas ao mesmo tempo distenso a essas produções. Prova
disso é que o eu-lírico ama a "acidez" e “os ângulos agudos” – há uma devoção à
poesia do mais e à poesia do menos, o que justifica o título do poema, que é a
união dos contrários. Pergunta-se até se o poeta convoca a estética barroca no
poema em análise.
Na
5ª estrofe, o eu-lírico apresenta outra contrariedade: a das “raivas frias”. A
proposta de hipálage aqui reúne a intensidade da raiva diante do comportamento
dos críticos literários da época com a frieza que anula qualquer perspectiva de
mudança de fato. As “raivas frias” são o inconformismo diante de um determinado
status quo, mas que, pela frieza, tal
inconformismo desvanece, porque o eu-lírico parece não ver nenhuma perspectiva de
mudança.
Nesse
âmbito, há a ideia de que o poeta se manifesta pela recusa de escrever nos
gêneros prosaicos. O eu-lírico reconhece a possibilidade de fama daqueles que
escrevem em prosa, mas ele parece ir na contramão desse pensamento, já que ao
mesmo tempo não deseja a fama, mas reclama pela falta de reconhecimento de sua
produção lírica – mais uma contrariedade – , situação essa que será mudada
muito tempo depois (hoje a poesia de Cesário Verde é reconhecida, se
considerarmos autor e eu-lírico como a mesma pessoa).
À
época da escrita do poema, o eu-lírico esperançou ter a sua produção poética reconhecida.
Nessa esperança, ele não nega a existência de um mundo exterior que também
precisa de atenção, como o caso da “secretária” (3ª estrofe) e o da “vizinha”
(última estrofe). Isso mostra que o eu-lírico, que reclama pelo reconhecimento,
não está alheio às questões do cotidiano, que também são matéria-prima para o
seu fazer poético. Daí é que se nota a vontade do poeta: que o discurso da vida
também entre em cena na poesia, atitude essa que, pelos críticos da época, não
era tão valorizada, ao contrário do que queria o poeta.
Para ler o poema, acesse https://www.citador.pt/poemas/contrariedades-cesario-verde (acesso em 21 de maio de 2023).